terça-feira, 26 de julho de 2022

Enquadrado 


Deve ter sido o olhar do mar

Que marejou teus olhos

 

Deve ter sido o vendaval

O que me vendou

 

O temporal que nos arrancou o tempo

O lodaçal, o que nos enlutou

 

Deve ter sido uma coisinha de nada

Ou quem sabe então um nada demais

 

Nossa língua viva, nossas rôtas rotas

Deve ter sido o nosso deve ser

 

A dar esses tons de amarelo grave

De azul profundo a esmaecer

Sem o que, nesse etéreo quadro,

Em que me varo, crivado

Não poderia ver

 

Teu sorriso espelhando o meu

O teu cheiro me espalhando o chão

 

Talvez não valesse o que me valeu

Talvez não ardesse o que se incendeia

No que de mim será sempre o sempre seu.